Matéria retirada do O Globo on line/blogs, por Leonardo Lichote.

Zeca Baleiro: ‘Vivemos a era da aparência’
Prestes a lançar “O coração do homem-bomba” (seu primeiro CD de inéditas desde “Baladas do asfalto & outros blues”, de 2005), Zeca Baleiro solta um belo aperitivo para os fãs. Não me refiro a “Toca Raul”, faixa do próximo disco já disponível para download no site oficial do homem, e sim à “Geraldas e avencas”, trilha sonora do espetáculo de dança homônimo do Grupo 1º Ato. O disco é um lançamento do selo de Baleiro, o Saravá Discos.
Semana passada, publiquei uma pequena crítica no Segundo Caderno, que dá uma idéia do que é o CD. Segue:
“Em cada beat, ciranda, samba eletrohypado e xote da trilha de ‘Geraldas e avencas’ (Saravá Discos), Zeca Baleiro abraça e ironiza o universo da beleza fútil. Feitas para o Grupo de Dança 1º Ato, as canções têm o humor e o veneno de costume, com frases de comercial de xampu e rimas de botox com inox.”
Com a palavra, o autor:
O universo da beleza fútil - de passarelas, cosméticos e cirurgias - já é um assunto que te interessa há um tempo e que você já abordou em outras ocasiões. O que te atrai nesse tema?
Acho que a importância descabida à aparência (mais que à beleza propriamente) é sintomático do tempo em que nós vivemos - um tempo de hipocrisia aguda, de valores apenas aparentes, pouco profundos. Acredito que isso possa mesmo definir esta era, sem exageros. Foi por causa de canções como “Salão de beleza” que a Suely Machado, diretora do grupo 1º Ato, me chamou pra trabalharmos juntos.
Quando recebeu o convite para “Geraldas e avencas”, como pensou de cara em desenvolver o tema?
A Suely sabe bem o que quer, já tinha muitas pistas do que seria o espetáculo, coreografias iniciadas, esboços de movimentos em algumas cenas… Assistindo aos ensaios, tomei pé da proposta e fui compondo. Algumas coisas casavam de primeira, outras tiveram de ser adaptadas, outras ainda, compostas a princípio pra uma cena, acabaram por serem utilizadas em outras e assim foi. Usei nos temas muitos compassos ímpares, quebrados, uma alusão musical sutil à imperfeição, à falha e mesmo aos aleijões abordados no espetáculo.
Musicalmente, o CD tem momentos mais leves, outros mais densos, como se você visse os dois lados da moeda dessa beleza - champanhe/antidepressivo, sorrisos públicos/ angústias privadas. É isso? Como você montou a sonoridade da trilha?
A idéia era abordar essa ditadura das aparências sem perder a ternura, a poesia e mesmo a compaixão. Por isso há essa alternância de temas mais irônicos e bem-humorados com outros mais líricos.
Quando você fala de beleza, é claro que não é só beleza que está em questão. Isso faz parte de algo que você acredita ser um compromisso (estético, político, filosófico, escalafobético) do compositor popular hoje (se é que existe compromisso algum compromisso do tipo)?
O compromisso de um artista hoje, isso pra os que têm algum, é dar o testemunho de seu tempo, com as armas que tiver. Quero falar das coisas que acredito nas minhas canções, por isso afinei com o projeto do balé. Temos, eu e a Suely, visões parecidas do mundo.
Que projeto cabe e que projeto não cabe na Saravá Discos?
Ainda não sei (rs). A princípio, o selo foi feito pra abarcar meus projetos paralelos - trilhas, produções etc. Mas no meio do caminho quis remasterizar dois trabalhos pelos quais tenho muito apreço - “Cabelos de Sansão”, do cearense Tiago Araripe, e “Sinceramente”, último LP de Sérgio Sampaio, dois discos da minha “discoteca afetiva”. Ainda não é um selo com perfil pop, competitivo, mercadológico. Talvez um dia seja, quem sabe.